“O Irlandês” e o envolvimento da máfia em Cuba

O Irlandês

Lançado recentemente pela Netflix, o  longa-metragem “O Irlandês” (The Irishman) está obtendo grande repercussão e tem recebido críticas majoritariamente positivas dos críticos de cinema. 

Dirigido pelo aclamado diretor Martin Scorsese e baseado no livro de 2004 "I Heard You Paint Houses", de Charles Brandt, o filme conta com atores renomados  como Al Pacino, Joe Pesci, além de Robert De Niro como protagonista. 

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Robert De Niro no restaurante La Guarida, Havana.

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O filme narra a trajetória de Frank Sheeran (De Niro), um motorista de caminhão que se torna um assassino envolvido com o mafioso Russell Bufalino (Pesci) e sua família criminosa, incluindo seu tempo trabalhando para o poderoso Jimmy Hoffa (Pacino).

 

Negócios da máfia em Cuba e a Invasão da Playa Girón, 1961

Indo de encontro ao discurso oficial do governo estadounidense de que o isolamento de Cuba pelo bloqueio se justificaria por sua suposta ameaça aos “ideais da democracia e da defesa dos direitos humanos no continente americano”, em diversos momentos o filme mostra tanto no pano de fundo como em cenas centrais, o envolvimento da máfia na invasão da Playa Girón, no sudoeste do arquipélago cubano, em 1961, como uma resposta às perdas financeiras sofridas pela elite e pelos mafiosos estadounidenses após à Revolução Cubana.

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museu playa girón

Museu Girón em Playa Girón.

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Motivados pelo desejo de retomar os lucros exorbitantes dos estabelecimentos na ilha que foram expropriados pelos revolucionários, os mafiosos armaram um exército de mercenários exilados e, sob tutela e colaboração do governo e da CIA, coordenaram esquemas de espionagem e invasão na ilha.

A invasão durou apenas três dias. Inicialmente, oito bombardeiros B-26, fornecidos pela CIA, atacaram os aeroportos cubanos e depois voltaram para os EUA. Na noite de 16 de abril de 1961, a invasão principal dos mercenários, que se encontrava na Guatemala, desembarcou em Playa Girón, no começo, tendo surpreendido o exército revolucionário. Contudo, a contraofensiva foi mais forte do que o calculado pelos norte-americanos e ao fim de apenas três dias os invasores foram derrotados pelo exército e civis cubanos armados.

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museu giron

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O legado dos mafiosos

Antes de 1959, Havana era o centro dos cassinos, prostíbulos e lavagem de dinheiro das elites norte-americanas. Em 1º de janeiro de 1959, os cidadãos saíram às ruas de Havana depois de ouvirem a notícia da vitória dos guerrilheiros. Alguns saquearam os cassinos, esmagaram e jogaram máquinas caça-níqueis nas ruas. Para o povo, os hotéis e demais empreendimentos de luxo de propriedade americana simbolizavam uma influência estrangeira corrupta.

Embora alguns mafiosos tenham permanecido em Cuba após a Revolução, esperando que seus negócios voltassem a prosperar com a ascensão do novo governo, esse plano nunca viera a funcionar. Os empreendimentos da máfia foram pulverizados para outras ilhas caribenhas como as Bahamas e, dentro do território americano, Las Vegas tornou-se o centro dos cassinos.

Atualmente, a história da máfia em Cuba é em si uma atração turística, sobretudo em Havana. É possível, por exemplo, visitar o Hotel Nacional, onde um tour diário conta a história dos mafiosos que lá se hospedavam, ou apreciar um show no icônico Cabaret Tropicana, antigo cassino da máfia transformado em casa de shows que agora pertence ao Estado.

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Hotel Nacional.

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O filme tenta demonstrar na empreitada  em retomar o controle de Cuba, a realidade das relações não escritas entre políticos e grupos econômicos que, acobertados pelo discurso oficial que exaltava a "defesa da democracia nas Américas", perseguiam seus interesses interferindo de maneira ambígua (parte apoiada pelo governo e parte não transparente, financiada pela máfia) em países soberanos.

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