Conhecendo a autêntica Cuba: uma viagem que vale reprise

Viajei para a ilha pela primeira vez no início de 2017, um dos anos mais agitados para o turismo em Cuba, já que o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, havia negociado com Raúl Castro, alguns anos antes, medidas para normalizar a relação entre as duas nações, o que incluía facilitar a viagem de cidadãos norte-americanos, historicamente dificultada pelo embargo.

A curiosidade de viajar para Cuba já existia há alguns anos, mas lembro que não era fácil encontrar informações sistematizadas sobre como ir até a ilha sem o intermédio de um pacote de turismo ou de alguma grande agência. Além disso, as informações que circulavam no Brasil contribuíram para a minha impressão de que Cuba seria um país fechado, com pouco incentivo ao turismo.

Essa viagem, que teve duração de cerca de duas semanas e na qual desfrutei da companhia do meu namorado, me provaram o extremo oposto do que eu esperava: conhecer Cuba foi muito fácil e lá encontrei um país aberto, preparado e que cada vez mais busca investir no turismo e divulgar sua cultura para o mundo.

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turismo cuba     Parque Central en Havana visto a partir do Capitolio Nacional de Cuba

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Nosso roteiro incluía 6 destinos: Havana, Viñales, Playa Girón, Trinidad, Santa Clara e Cayo Santa Maria. No trajeto entre uma e outra ainda tivemos tempo, felizmente, para paradas em Cienfuegos, Playa Larga e Remedios, o que nos possibilitou conhecer um pouquinho da vida nas pequenas cidades do interior da ilha.

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viagem cuba      Centro de Cienfuegos.

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Além da chegada e primeira noite em Havana, nosso primeiro destino foi Viñales, na parte ocidental da ilha. Viñales é uma cidade bem pequena, muito simpática e cercada por belos vales e plantações de tabaco; aquelas mesmas que produzem os melhores charutos do mundo! Foi muito bom poder respirar o ar puro e curtir o clima da vida no interior. Ainda visitamos uma plantação de tabaco e passeamos pelas ruazinhas tranquilas da cidade.

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Visita a uma plantação de tabacos em Viñales.

Como em toda viagem ao exterior, imprevistos acontecem. A parte ruim de Viñales foi que tive uma forte intoxicação alimentar. No entanto, essa experiência negativa me proporcionou uma vivência fora do roteiro tradicional dos turistas em Cuba, que foi poder conhecer o famoso sistema de saúde cubano! E realmente, hoje posso dizer que fui muito bem atendida. Depois de tomar uma injeção, no dia seguinte já comecei a me sentir melhor.

Perto de Viñales é possível conhecer uma pequena praia paradisíaca não habitada, chamada Cayo Jutías. Águas calmas e cristalinas bem no estilo caribenho. O único restaurante situado do local serve deliciosos pratos com lagostas e camarão. Aliás, nas praias de Cuba em geral é comum encontrar esse tipo de gastronomia por preços acessíveis, para o deleite dos fãs de pratos com frutos do mar.

cubadebate      Cayo Jutías.

Já em direção à parte oriental da ilha, nossa primeira parada foi em Playa Girón, onde ocorreu o consagrado “desembarque na baía dos porcos”, onde os revolucionários obtiveram uma vitória decisiva contra os mercenários comandados pelo governo estadounidense, nos anos 1960. Além de tratar-se de um passeio de cunho histórico, já que é possível visitar o museu da Playa Girón que relata em detalhes desse evento, a região possui um grande valor biológico em função da fauna e flora local, pois situa-se em uma das maiores áreas alagadas do mundo inteiro, a Ciénaga de Zapata. Lembro muito das estradas cercadas pela floresta e da travessia de milhares de caranguejos enormes de um lado para o outro do trajeto. Infelizmente, muitos deles não sobreviveram para confirmar minha versão…

Já Trinidad, mais a leste, é uma cidade tombada pela UNESCO pela preservação do seu centro histórico. Conhecer Trinidad foi inesquecível pelo charme das casinhas coloniais super coloridas e das ruas construídas com aquelas pedras enormes há vários séculos atrás. A cidade é sempre animada e movimentada de turistas e tem muitas opções de bares e restaurantes.

     Rua em Trinidad.

Para chegar a Santa Clara, cruzamos a parte central da ilha de sul a norte, o que não levou muitas horas já que a ilha possui um formato muito mais alongado em suas extremidades leste-oeste. O trajeto foi uma grande aventura pois erramos o caminho “oficial” e cruzamos uma estrada por cima da serra, passando por vilarejos minúsculos, trechos super estreitos com uma bela vista - já que estávamos em cima de montanhas -, hotéis já abandonados,,,. enfim, um verdadeiro cenário cinematográfico! Lembro que na hora estávamos com medo de anoitecer e andar pelos terrenos acidentados da região, mas como no fim tudo ocorreu bem, acabou por ser uma experiência bastante inesperada e memorável para mim.

Santa Clara é simplesmente imperdível para quem se interessa pela história da Revolução, pois é lá que se encontra o majestoso mausoléu do Che e também onde consta o museu que conta o evento em que ele e sua coluna descarrilharam um trem carregado de armamentos para o exército de Fulgêncio Batista, feito que foi muito relevante para a vitória  dos revolucionários.

     Mausoléu do Che Guevara.

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Já dentro de uma perspectiva menos cultural e histórica mas bem mais praias caribenhas e muitos mojitos, Cayo Santa Maria foi uma escolha que valeu cada segundo. Atravessar de carro a estrada que passa por cima do mar até chegar na ilha menor do Cayo em si já foi uma lembrança inesquecível e belíssima. Lá, as únicas opções de acomodação são resorts all inclusive que, diferente do que imaginava, cobram preços justos pela estadia. As praias paradisíacas que contornam o Cayo, o som da brisa e da fauna noturna são sensações que nunca vou esquecer.

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    Vista do resort em Cayo Santa Maria.

Por fim, Havana. Nos hospedamos na conhecidíssima Habana Vieja, na casa da dona Maria Teresa e do seu Roberto. Foi a melhor estadia, tanto em função do carinho dos nossos anfitriões como pela localização da casa.

Habana Vieja foi o município (seria como um bairro, se comparando ao tamanho que estamos acostumados no Brasil) na capital que mais gostei. A Calle Obispo fez juz à fama que tem, pois eu poderia passar tranquilamente um dia inteiro explorando os estabelecimentos com calma, saboreando as comidinhas de rua e observando a incrível arquitetura colonial que a Oficina do Historiador tem se empenhado em restaurar com bastante sucesso.

                            O melhor chopp de Havana: Factoría Plaza Vieja.

Vedado foi legal para caminhar, pois é uma região bem arborizada com ruas mais amplas; conhecer os belos casarões da elite cubana pré-revolução, visitar alguns pontos turísticos, como o Hotel Nacional, a Universidade de Havana e para experimentar o delicioso sorvete da sorveteria Coppelia.

     Cine Yara, Vedado.

Ente os restaurantes um dos meus preferidos foi o Nazdarovie. A decoração é inspirada na arte da propaganda política da antiga União Soviética, a comida reproduz pratos típicos da Rússia e ainda tem mais um charme extra: fica bem de frente ao Malecón e ainda é possível comer na sacada sentindo a brisa da praia.

Um dos meus locais preferidos em Havana foi o Museu de Belas Artes de Cuba e, para os apreciadores de arte, definitivamente é um ponto imperdível da viagem. O museu conta com uma enorme coletânea de artistas cubanos em um prédio e de acervo estrangeiro em uma segunda construção. O museu é muito grande e não perde em nada para museus famosos das outras capitais internacionais.

Enfim, visitar Cuba foi uma experiência muito sensorial que remete ao calor tropical, ao sol, o ritmo das músicas caribenhas, as cores que compõem as ruas de Havana Vieja e muito mais.Cuba é aquele lugar em que sempre tem algo mais para conhecer em sua ampla gama de opções desde eventos culturais como um show de jazz ou salsa a belíssimas praias caribenhas onde é possível mergulhar, velejar ou apenas apreciar um mojito na areia. Assim como todos os amigos que conheço que já visitaram Cuba, mal posso aguardar pela próxima oportunidade de viajar à minha ilha favorita do mundo <3

Por: Ticiana Amaral

Mestre em Economia Política Internacional pela UFRJ
Editora do Dicas Sobre Cuba

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