7 pontos essenciais para entender o que está acontecendo em Cuba

Publicado por Dicas sobre CUBA em

7 pontos essenciais para entender o que está acontecendo em Cuba

No último domingo, 11 de julho, manifestantes tomaram as ruas em diversas cidades de Cuba em uma demonstração de insatisfação contra a situação econômica e o governo cubano. Protestos de massas não são frequentes em Cuba, tendo sido reportados pela última vez nos anos 1990, no chamado “período especial”, quando o país enfrentou severas dificuldades econômicas após o fim da União Soviética.

Manifestantes protestam em Havana no último domingo, 11/7. Foto: Alexandre Meneghini/Reuters.
1. As principais causas dos protestos

2020 não foi um ano fácil para a maioria dos países. A pandemia causada pela Covid-19 resultou em uma crise sanitária global, seguida pelo declínio acentuado da atividade econômica que afetou irrestritamente todos os continentes, ainda que em medidas distintas.

Cuba, assim como outras economias caribenhas, foi fortemente afetada em função da diminuição das receitas geradas pelo turismo. Nos cinco primeiros meses deste ano, o número de turistas internacionais que visitaram a ilha caiu 94% se comparado com o mesmo período do ano passado. Além disso, parcela significativa de sua pauta de exportação é composta por produtos de luxo, como o tabaco, em forma dos prestigiados charutos da Habanos, e rum de qualidade, cujas vendas foram impactadas pelo declínio das festas e reuniões sociais no mundo inteiro.

O resultado desse somatório foi a queda de 11% do Produto Interno Bruto (PIB) cubano em 2020, o que agravou as contradições latentes da economia cubana. Devido à escassez de divisas – moeda para garantir a importação – houve restrição na obtenção de alimentos e medicamentos. Filas se formam para a obtenção de produtos básicos como carne de frango e arroz. Além disso, apagões de energia são registrados em pleno verão cubano, devido ao embargo ao fornecimento de petróleo, promovido pelos EUA.

Embora Cuba tenha logrado desenvolver cinco vacinas próprias contra a Covid-19 (Abdala, Soberana 01, Soberana 02, Soberana Plus e Mambisa), ocorrência única na América Latina, que atraiu os holofotes da mídia internacional e conferiu prestígio ao sistema cubano, no momento, devido à propagação das novas variantes, ocorre um agravamento do quadro pandêmico que, durante muito tempo, esteve controlado e legitimou a atuação do governo no combate à pandemia.

Filas para comprar alimentos em Havana. Foto: Yander Zamora/EFE.
    2. A oposição está longe de ser unanimidade em Cuba

    Embora a narrativa presente em grande parte dos veículos midiáticos tradicionais do Brasil tenha se centrado na unanimidade do povo revoltado com o atual governo e na suposta “forte repressão policial”, esse discurso não esteve presente em diversos veículos da imprensa internacional.

    Gregory Biniowsky, especialista em Cuba e correspondente em Havana da Al Jazeera, destacou que a oposição ao atual governo está longe de ser unanimidade em Cuba e que, pelo contrário, há uma pluralidade de opiniões na qual predomina o apoio às recentes reformas que vêm sendo conduzidas nos últimos anos. O analista acrescentou ainda que não é possível se falar em forte repressão policial, uma vez que não foram reportados casos de pessoas gravemente feridas ou mortas nos protestos, ainda mais quando se comparando com manifestações típicas da América Latina como no Chile, que culminaram em centenas de pessoas perdendo a visão em decorrência da artilharia com balas de borracha, ou na Colômbia, em que diversos ativistas foram assassinados.

    Na segunda-feira, 12/7, manifestantes defendendo o legado da Revolução, Plaza 13 de Marzo, em Havana.
      3. O bloqueio imposto unilateralmente pelos EUA contra Cuba

      Desde 1962, os EUA impõem contra Cuba um bloqueio comercial, econômico e financeiro. Entre as principais medidas, estão sanções impostas pelos EUA às empresas que compram produtos da ilha, limitando as exportações cubanas.

      Um exemplo prático: Cuba tem a 3ª maior reserva de cobalto do mundo. A Sherritt é uma empresa canadense que se associou à estatal cubana Cubaníquel para produzir cobalto na cidade de Moa, província de Holguín. A empresa japonesa Panasonic comprou cobalto da Sherritt para utilizar nas baterias que fornece ao Tesla, veículo elétrico de uma empresa norte-americana. Os EUA, por sua vez, ameaçaram punir a Panasonic, com base nas leis do bloqueio, porque as baterias vendidas para Tesla utilizavam cobalto cubano. Em função disso, a Panasonic deixou de comprar cobalto da Sherritt e Cuba perdeu um mercado importante para exportar o metal. Assim, menos divisas entraram na economia da ilha, dificultando a importação de outros produtos que Cuba necessita e o desenvolvimento do país.

      Da mesma forma, os EUA aplicam sanções contra empresas que realizam comércio com Cuba, limitando as opções de importação da ilha e principalmente encarecendo os produtos a serem comprados. Em caso recente, a Casa Branca puniu empresas panamenhas de transporte marítimo que levavam petróleo à ilha, o que prejudicou o fornecimento de energia a partir da Venezuela, gerando limitações de abastecimento e necessidade de racionamento.

      O governo de Donald Trump recrudesceu o bloqueio, voltando a incluir Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo e impôs quase 243 novas sanções. As medidas restringem viagens de turistas estadunidenses à ilha, assim como o envio de remessas de cubano-americanos para seus parentes residentes em Cuba.

      De acordo com William LeoGrande, professor da American University, essas remessas representam cerca de 3,5 bilhões de dólares anualmente, uma proporção elevadíssima para a economia caribenha. A medida afetou seriamente a renda de cerca de 60% das famílias cubanas que contavam com o auxílio de parentes que vivem no exterior, sobretudo em Miami.

      Roger Waters, cantor e compositor da banda Pink Floyd, utilizou uma metáfora para explicar o criminoso bloqueio patrocinado pelos EUA contra Cuba:

      “se você está interessado na minha casa e não pode comprá-la porque eu não quero te vender, nem quero alugar ou arrendar pra você … você me tranca em minha própria casa e não me deixa sair para ir ao supermercado, farmácia e nem banco, e não deixa que me vendam as peças para consertar meu carro ou motocicleta, e ainda cancelam minhas contas e cartões de crédito e poupança … Depois de um tempo meus parentes se desesperarão, alguns escaparão pela janela … e do lado de fora você começará a gritar que sou inepto para conduzir as rédeas da minha casa e que sou um ditador, que faço minha família sofrer … e então começarão a dizer que o governo da minha casa está em crise e que os vizinhos terão permissão para intervir a fim de atender a crise humanitária de minha família. E por fim você nunca vai dizer que o que te interessa é ficar com a minha casa. E que por isso você me colocou nesta situação crítica perante a minha família.”

      Charge do cartunista brasileiro Latuff.
        4. Financiamento a ONGs contra o governo

        Em uma declaração ao povo cubano exibida pela mídia, o atual presidente Miguel Díaz-Canel atribuiu a responsabilidade pelas manifestações não somente ao bloqueio econômico, mas também ao financiamento a ONGs e indivíduos por parte do governo dos EUA.

        Longe de constar no rol de teorias de conspiração, o financiamento a ONGs contra o governo cubano constam oficialmente todos os anos no orçamento público dos EUA. Em 2019, foram destinados 45 milhões de dólares de “ajuda” para “promover a democracia e fortalecer a sociedade civil” em Cuba.

        A edição de 13 de julho, do jornal The Washington Post, destaca que para o orçamento fiscal de 2022 de Biden estão previstos mais 20 milhões de dólares de financiamento aos “movimentos” que atuam na ilha.

        O dinheiro do orçamento dos EUA é canalizado para entidades que patrocinam “sites de notícias”, influenciadores digitais e movimentos que pedem “liberdade” e “democracia”. Parte desse dinheiro serve para financiar artistas e cantores que arremetem contra a Revolução e o governo cubano, como o chamado Movimento San Isidro.

        No início deste ano, os músicos da banda Gente de Zona junto com Yotuel Romero (Orishas) e Descemer Bueno produziram a canção “Pátria y Vida”, na qual expressam “Mi pueblo pide libertad, no más doctrinas / Ya no gritemos patria o muerte sino patria y vida”. O título é uma afronta ao lema revolucionário “Pátria o Muerte”, cunhado por Fidel. Por “coincidência”, os protestos utilizam o mesmo lema “Pátria y Vida”.

        O uso da internet ampliou a rede de meios de comunicação financiados contra Revolução cubana.
          5. Elementos de guerra não convencional

          Embora sejam inegáveis a dimensão dos atos e a participação de parte da população cubana, sobretudo os mais jovens, deve ser apontada a utilização de estratégias de guerra não convencional para manipular os sentimentos e impulsionar o movimento.

          Apresentados como uma “manifestação espontânea”, os atos do último domingo contaram com elementos de guerra híbrida, revolução colorida ou golpe branco, já experimentados em outras partes do mundo.

          Julián Macías Tovar, um analista espanhol e especialista em redes sociais, revelou uma operação contra Cuba patrocinada a partir do exterior. Depois de estudar mais de dois milhões de tuítes usando a hashtag SOSCuba, verificou que a mobilização que começou pedindo ajuda humanitária e terminou com os atos de rua contou com milhares de contas recém criadas e robôs para impulsionamento.

          Tovar, ativista contra a desinformação, evidenciou o uso de contas recém criadas e robôs para impulsionamento de campanha contra Cuba.

            A guerra não convencional se desenvolve utilizando componentes midiáticos, agora potencializados pelo uso das redes sociais que facilitam a geração de notícias falsas, a manipulação dos fatos e as chamadas meias verdades.

            No caso cubano não foi diferente, Tovar evidenciou o uso de imagens manipuladas e a construção das “manifestações espontâneas” por fases: primeiro retratar um suposto colapso das instituições sanitárias pelo aumento de casos de Covid-19, depois artistas internacionais solicitando ajuda humanitária e finalmente a construção de um quadro que legitimasse uma intervenção militar estadunidense.

            A manipulação de imagens também foi utilizada no domingo em Cuba.
            A internet foi tomada por notícias falsa, visando desestabilizar o país.
              6. A resposta do governo dos EUA ante as acusações

              Em conferência de imprensa, o atual presidente dos EUA, Joe Biden, negou que o país exerça influência sobre a situação em Cuba. Biden ainda rebateu e “sugeriu” que o governo cubano atendesse às demandas dos manifestantes, desconsiderando a pluralidade de posicionamentos políticos na ilha. O presidente dos EUA não fez menção às mais de 243 medidas do bloqueio que seguem vigentes, afetando praticamente todas as dimensões do cotidiano dos cubanos, e nem aos financiamentos às ONGs.

              Em matéria dedicada exclusivamente à situação em Cuba, o jornal The Washington Post traz um argumento importante para se entender as ações de Biden no sentido de não decretar nenhuma medida para aliviar o aperto no bloqueio realizado por Trump. De acordo com o jornal, essa omissão ocorre, sobretudo, diante da proximidade das eleições na Flórida para o Senado. Devido a enorme população de exilados cubanos anticastristas após a Revolução Comunista que migrou para o estado no sul dos EUA, Biden estaria tentando garantir o suporte desses eleitores aos candidatos do partido Democrata.

                7. Cuba não renunciará a sua soberania

                O que ocorre em Cuba é consequência do agravamento de contradições já existentes dentro da sociedade cubana diante de um cenário econômico difícil e da maior disseminação da Covid-19, somados ao oportunismo geopolítico exercido pelos EUA, no sentido de recrudescer o bloqueio em um momento tão delicado no qual a comunidade internacional preza pela união e colaboração.

                A Dicas sobre CUBA, antes de também passar a realizar Viagens Culturais à ilha, surgiu como uma plataforma de informação e interação que buscava trazer conteúdo de qualidade para brasileiros interessados nas diversas dimensões que compõem a sociedade cubana. Os editores da página, mais uma vez, lamentam a narrativa parcial que permeia os diversos veículos da mídia brasileira, que persistem em não reconhecer os enormes prejuízos materiais causados pelo bloqueio criminoso imposto contra Cuba e a existência da complexidade e pluralidade de opiniões políticas na ilha.

                As divergências existentes na sociedade cubana devem ser resolvidas internamente e pelo próprio povo cubano. Durante o período especial, Cuba enfrentou dificuldades mais complexas e por um período mais prolongado e, assim mesmo, foi capaz de se recompor e encontrar alternativas para seguir adiante. Esperamos que, muito em breve, a situação econômica se recomponha e que as condições sanitárias permitam que cada vez mais pessoas possam visitar a ilha e conferir pessoalmente o país resistente e soberano que é Cuba.

                Categorias: Notícias

                2 comentários

                Sérgio Amorim · 17 de julho de 2021 às 19:17

                Excelentes as informações, que traduzem de forma mais digna e racional a situação cubana, presente e passada.
                A metáfora do Roger Waters é ótima.

                  Dicas sobre CUBA · 19 de julho de 2021 às 09:59

                  Roger Waters foi certeiro!

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