Eusebio Leal, o historiador de Havana nos deixou

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Castillo de la Real Fuerza (1577), Renascentista, Catedral de la Habana (1777), Barroco, Hotel Ambos Mundos (1924), Neoclássico com Art Déco, Edifício Bacardi (1930), Art Déco. As construções mencionadas, em distintos estilos arquitetônicos e épocas, são uma pequena amostra do trabalho de restauração do centro histórico de Havana.

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Catedral de La Habana

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Quem tem a oportunidade de visitar a capital de Cuba, regressa encantado pelo riquíssimo patrimônio histórico habilmente restaurado e preservado na cidade.

Por trás da revitalização do centro histórico existe um idealizador: Eusebio Leal Spengler, que nos deixou recentemente. Intelectual, culto, Leal será sempre lembrado pelo seu amor e o irreparável trabalho de restauração de Havana.

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Eusebio Leal, o Historiador de Havana.

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Cubano, nascido na capital em 1942 , Eusebio Leal estudou na Universidade de Havana, onde obteve seu título de Mestre em Estudos Latino-Americanos, Caribenhos e Cubanos e Doutor em História.

Já erudito e brilhante, aos 25 anos Leal se viu envolvido no processo ao qual dedicaria o resto de sua vida profissional: a restauração e preservação do patrimônio histórico de Havana.

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Hotel Santa Isabel, na Plaza de Armas

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A Calle Tacón

Na época, o jovem Eusebio Leal impediu a depredação de uma estrutura histórica situada próxima ao Palácio de Los Capitanes Generales e a Plaza de Armas. Ele encontrou fragmentos de uma rua de madeira da era colonial, que o consagrado naturalista alemão Alexander von Humboldt relatara ter visto em 1800.

Além de alguns fragmentos em Paris, Roma e São Petersburgo, os tijolos de madeira eram uma descoberta única e Leal logo ganhou permissão para replicar todo o trecho em madeira. Hoje, a rua denominada “Calle Tacón” é um ponto turístico imperdível da cidade.

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Calle Tacón com artistas populares.

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Eusebio, Celia Sánchez e Fidel

Eusebio Leal passou a se envolver frequentemente nos trabalhos da “Oficina del Historiador”, instituição responsável pelo patrimônio de Havana, na qual agia como uma espécie de consultor.

No entanto, não foi fácil para que suas ideias chegassem ao homem mais ocupado do país, o então presidente Fidel Castro. Contudo, a partir da ajuda e da amizade com Celia Sánchez, parceira de Fidel na guerrilha do final da década de 1950, Eusebio Leal finalmente pôde expressar suas ideias a Fidel.

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Fidel e Eusebio em Habana Vieja.

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Durante os anos 90, a situação econômica estava muito difícil na ilha. Com o fim da União Soviética e a intensificação do bloqueio a Cuba imposto pelos EUA, o país ingressou no chamado “Período Especial em Tempos de Paz”.

Em 1993, em uma viagem diplomática a Cartagena, cidade turística no caribe colombiano, Leal acompanhou Fidel. Na oportunidade, o líder da Revolução questionou Leal sobre como seria possível investir no potencial de Havana como atração turística, uma vez que seu centro histórico, desde 1982, já havia sido declarado pela UNESCO patrimônio da humanidade.

Leal, então, explicou que era necessário um modelo econômico totalmente novo, onde hotéis, restaurantes e museus captariam o dólar americano e os lucros seriam direcionados à restauração

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Assim surgiu a Habaguanex, empresa que podia lidar diretamente com investidores e arrecadar fundos estrangeiros, ficando isenta de devolver seus lucros ao Estado. Com altos e baixos, a depender do montante disponível para a restauração e arrecadado com o turismo, Habana Vieja vem sendo revitalizada incessantemente até hoje.

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Leal em encontro com crianças. Foto: Unicef (ONU).

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Cabe ainda lembrar do caráter humanista de Leal. Apaixonado pela história de seu país e ferrenho defensor de seu patrimônio, Leal foi um dos responsáveis pela manutenção de Habana Vieja como um “centro vivo”.

Apesar do enorme fluxo de turistas e potencial para negócios, o plano de restauração da região não forçou a saída os moradores locais. E isso é talvez o mais incrível de Habana Vieja, pois ela não foi convertida em um enclave artificial isolado do resto da cidade, mas continuou sendo um centro vivo e animado onde turistas e cubanos interagem nos ritmos caribenhos..

Em 2019, Leal liderou a organização e foi um grande entusiasta da festa de 500 anos de Havana, quando a cidade e a sua população receberam o Capitolio Nacional de Cuba, depois de anos de um trabalho minucioso de restauração.

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Estátua símbolo da República, no interior do Capitolo Nacional.

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Eusebio Leal Spengler faleceu na última sexta-feira, 31 de julho de 2020, aos 77 anos, vítima de um câncer. Seu legado, no entanto, permanece em cada esquina de Habana Vieja e no coração do povo cubano.

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“É verdade que tudo sempre me levou a Havana. Se houvesse outra vida além desta que conhecemos aqui embaixo, minha alma vagaria eternamente por Havana. Tem sido o melhor dos meus amores, a melhor das minhas paixões, o maior dos meus desafios.”

Eusebio Leal Spengler (1942-2020)

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