Depoimentos de quem foi para CUBA

Viajei para Cuba com minha namorada em janeiro de 2020. Nossa viagem durou 16 dias, sendo 15 deles em Havana e um bate e volta em Varadero no último dia. A decisão de ficarmos concentrados em uma só cidade teve influência da questão financeira (redução dos gastos com transporte) e cultural, queríamos aprender tudo o que fosse possível sobre a vida em Havana. Do ponto de vista financeiro a decisão não foi muito acertada, no fim vimos que com a quantia que viajamos daria para conhecermos outras cidades sem muitas preocupações. Já do ponto de vista cultural, não nos arrependemos. Ficaríamos muitos outros dias em Havana e mesmo os 15 não foram suficientes para conhecer tudo o que queríamos.

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A viagem vinha sendo planejada há cerca de três anos e desde o início foi cercada de expectativas. A principal delas era a de conhecer um dos poucos países socialistas, que resistiu às mudanças provocadas pelo fim da Guerra Fria e a todas as tentativas de sabotagem promovidas pelos EUA. Por saber que expectativas (sejam elas boas ou ruins) tendem a ser frustradas pela realidade, tentei me livrar delas antes de aterrissar em Cuba. Desci do avião com a ideia de viver a viagem, de perceber e aprender tudo o que pudesse sobre o país.

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Ainda no caminho entre o aeroporto e Havana tivemos uma experiência não muito positiva, o taxista que nos levou para a habitação deu grandes exemplos de como o machismo está enraizado em muitas sociedades. Apesar do incômodo, a experiência vivida no carro não foi muito diferente das coisas que estamos acostumados a presenciar no Brasil e foi rapidamente superada pela linda forma como fomos recebidos por nossos anfitriões da Casa Amistad. Maria, Roberto e Júlio e toda a família da casa são algumas das pessoas mais incríveis que já conheci em toda minha vida. Eles nos fizeram sentir acolhidos desde o primeiro segundo em que entramos em sua casa. Posso afirmar com toda a certeza que não me arrependo nem um segundo de termos escolhido ficar na Casa Amistad.

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A experiência com o povo cubano foi a melhor coisa que aconteceu na viagem, mas antes de falar sobre isso, quero falar sobre as demais impressões. Ficamos hospedados em Habana Vieja e a primeira impressão que tive foi da semelhança que o bairro tem com alguns locais do Centro Histórico do Rio de Janeiro, sendo a principal diferença a predominância da arquitetura espanhola. O bairro é um dos locais mais antigos da cidade e preserva construções com séculos de existência, muitas delas usadas
para habitação e algumas com estados de conservação bem ruins. Apesar disso, vimos muitas obras espalhadas pelo bairro e por toda a cidade. Em conversas com Maria e Roberto, tivemos um pouco da noção de como o bloqueio dificulta a realização dessas obras e do projeto de revitalização de Habana Vieja, que busca restaurar a cidade mantendo sua arquitetura original e evitando sempre que ocorram processos especulativos e de segregação socioespacial.

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Outro aspecto que chamou muita atenção foi a forma como o país valoriza sua história e sua cultura. A grande diversidade de museus e praças contam a história dos 500 anos da cidade e são muito importantes para valorizar os heróis dos processos revolucionários de independência. Cabe ressaltar aqui a onipresença de José Martí. O poeta e revolucionário da Guerra de Independência contra a Espanha é uma das personalidades históricas mais retratadas em quadros, praças e murais espalhados pela cidade, o que nos fez querer saber mais sobre a sua história.

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Sobre os museus, o que mais me impactou foi o da Revolução. Para além das peças expostas, o museu é um dos mais densos que já fui na vida. A quantidade de informação fez como que eu me sentisse dentro de um livro, onde eu precisava registrar com fotos vários dos painéis para que pudesse consultar depois.

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Inesquecível também foi estar na Praça da Revolução que, assim como o Museu da Revolução, era um dos lugares mais esperados por mim. Estar na praça e no Memorial José Martí foi uma das experiências mais inspiradoras que já tive na vida. Imaginar a praça lotada para os longos e impactantes discursos de Fidel, além de observar os painéis de Che Guevara e de Camilo Cienfuegos, foi algo que eu vou levar para vida e que espero viver algumas outras vezes. Acredito que qualquer pessoa que anseie, deseje e lute por um mundo mais justo e igualitário tem naquele lugar uma grande fonte de inspiração para a vida.

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Outros lugares que fizeram a viagem valer cada um dos dias de espera e planejamento, foram as praças das Armas e da Catedral, além do Malecón e da Fortaleza de La Cabaña. Nesta última, tivemos uma longa e inspiradora conversa com o senhor Espinoza, funcionário na Casa da Comandância do Che (uma das instalações da Fortaleza). Espinoza além de conhecer muito sobre a história e a cultura cubana, também nos deu uma aula de política, nos falando que para mudarmos as condições de vida em qualquer lugar precisamos primeiramente conhecer sua história.

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Eu poderia escrever centenas de páginas sobre os 16 dias que vivi em Cuba, falando sobre como era andar pelas ruas a qualquer hora do dia com tranquilidade e sem medo da violência, ou como foi viver em um ritmo de vida completamente diferente do que estamos acostumados, muito mais tranquilo e mais prazeroso. Para não me alongar muito quero ressaltar aquilo que para mim foi a melhor e principal experiência: o contato com o povo cubano. Foi incrível ver como as pessoas conhecem e valorizam sua história; como o país e o seu povo entendem a importância da educação, da cultura e da arte para a sua formação; como as pessoas ocupam os espaços públicos, com rodas de conversa nas praças, com grupos de música e dança espalhados pelas ruas, contagiando cubanos e turistas com sua alegria.

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Todas essas experiências me marcaram para sempre, mas que mais marcou e que mais vai deixar saudade e vontade de voltar a Cuba foi sem dúvida a relação com Maria, Roberto, Julio e toda a família da Casa Amistad. Posso dizer que a relação foi de amor à primeira vista e que em cada momento nos sentimos como membros da família, principalmente no momento mais tenso da viagem. Esse momento foi marcado por um pequeno problema de saúde comum as pessoas que viajam e entram em contato com culinárias diferentes daquelas que estão acostumadas. Maria e Roberto foram incríveis e cuidaram de nós como seus filhos, nos ajudando a contactar o seguro viagem, chamando o táxi que nos levou à clínica e principalmente cuidando da nossa alimentação nos dias seguintes, algo que não era obrigação deles.

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Apesar da tensão, essa situação nos deu um exemplo da solidariedade cubana e da eficiência da sua medicina. Fomos muito bem atendidos, examinados e medicados e poucas vezes tive um atendimento tão humano quanto em Cuba.

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Afirmo mais uma vez a satisfação de ficar hospedado em uma casa particular cubana. Além do cuidado quando mais precisamos, as experiências mais lindas que tive foram os cafés da manhã com Maria e Roberto. Cada manhã era uma aula diferente, cada manhã conhecíamos um pouco mais da história cubana, personificada nos dois. Sempre acompanhados dos noticiários da CubaVision e da TeleSur, tivemos contato com duas pessoas que viveram todo o processo revolucionário, pessoas que sabem como o país era antes e como ficou depois da Revolução Cubana. Assim como a maioria das pessoas que conversamos, Maria e Roberto conheciam cada característica natural e social do país, nos mostrando isso em cada conversa que tínhamos ao longo das manhãs.

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Destaco aqui, uma das melhores conversas que tive com Maria, onde perguntei sobre a relação do povo cubano com Fidel e a Revolução. Já esperava uma resposta positiva, mas o que ouvi foi surpreendente. Maria e Roberto me mostraram que uma revolução é um processo de mudança permanente e que sem o apoio popular, nunca poderá progredir. Maria me afirmou que o que sentia por Fidel e pelo processo revolucionário estava acima de qualquer questão política, era gratidão, por ela saber como era situação do país antes e depois da Revolução. Maria nos falou como era viver
em um país com milhares de analfabetos e como foi ver todas essas pessoas sendo alfabetizadas em pouco tempo; como era viver em um país onde o atendimento médico era privilégio de um pequeno grupo de pessoas e como é viver em um país onde não morre uma mulher grávida há quase 20 anos; como era viver em um país onde as crianças viviam na rua e como é viver em um país onde as crianças não morrem de fome e tem educação gratuita e de qualidade; como é viver em um país pobre, mas que garante alimentação, saúde e educação para todos os seus habitantes; como é viver em um país pobre, mas que oferece segurança para todos seus habitantes e turistas; como é viver em um país onde poucas pessoas vivem nas ruas, a maioria delas por problemas pessoais e familiares, e onde não há imóveis servindo apenas a fins especulativos; como é viver em um país que apesar do embargo econômico (que é real e afeta a todos) e de todas as ofensas que sofre, proporciona uma qualidade de vida para a sua população superior àquela vivida pela maioria das pessoas dos países latino-americanos.

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Todas essas experiências e conversas me fizeram querer voltar muitas outras vezes à Cuba, não só para conhecer os lugares que não consegui em Havana, mas para conhecer outras cidades, outras pessoas e muito mais a história desse país que faz muito com pouco e que deveria ser inspiração para todas as pessoas dos países periféricos.

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Escrito por Bernardo Perrota. O conteúdo do depoimento é fruto da experiência vivida e da opinião do autor.

 

Bernardo Perrota, Bernardo é professor de Geografia em Niterói, RJ.

Escrito por: Andreza Sant'ana

O conteúdo do depoimento é fruto da opinião e da experiência vivida pela autora.

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Em fevereiro de 2018, tive a oportunidade de conhecer a capital de Cuba. Depois de 5 dias em Havana, tentando ao máximo me conter nos locais “menos turísticos” possíveis, me hospedei na casa de uma família cubana que recebe pessoas de diversas partes do mundo, em uma atmosfera totalmente diferente do Brasil, onde também já me hospedei em casa de família.

Logo no primeiro dia, percebi que tudo o que havia ouvido falar e lido, sempre chegava distorcido. A família, cuja casa estive hospedada, era composta por pessoas maravilhosas, que me ajudaram desde o primeiro dia a pegar ônibus, chegar aos lugares, entender os preços, e conhecer MESMO onde eu estava.

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viagem para cuba

Parque Central, com Capitólio ao fundo.

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Eram quatro gerações na mesma casa. Ouvir de quem esteve presente na revolução sobre como era Cuba dos anos 50 e como é hoje, não tem comparação. Ver crianças e adolescentes não imersos em mundos eletrônicos e midiáticos e sim em inúmeros livros (que, por um acaso, alguns não chegam a custar um real) é de cair o queixo, porque tudo o que ouvimos e lemos como: “Cuba é um país pobre, as pessoas não têm papel higiênico, não têm pasta de dente...”, é puramente propaganda anti socialista. Ver que essas mesmas crianças estarão cursando medicina, economia, engenharia e direito sem pagar um centavo por isso, em uma das melhores universidades da América Latina, e saindo de lá com garantia de emprego é uma experiência inimaginável.

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rum havana club

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Quando cheguei, também me pareceu muito interessante que existam escolas em todas as esquinas, perto ou longe do centro. Tem ônibus para estudantes, ônibus para trabalhadores e um transporte público pensado para o povo, que custa 0,40 em moeda nacional (aproximadamente menos de 15 centavos!!!!!!). E são ônibus grandes, com espaço, ar condicionado, etc.

Me sentei um dia para conversar com o morador da casa onde estava hospedada e ele me disse que teve dois infartos e que tudo fora resolvido em menos de um dia, nas duas vezes. Sua esposa, que teve isquemia e necessitou fazer uma ressonância, não teve sequer de esperar um dia: foi e fez. Simples. De graça. Para qualquer pessoa que tenha problemas de saúde, uma consulta do melhor especialista não demora nem um mês. Quanto tempo, você, espera uma consulta pela UNIMED? Ou pela rede pública?

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malecón havana

Malecón de Havana, Castillo del Morro ao fundo.

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A cultura cubana é muito rica. A quantidade de museus em Havana e, creio que em toda a ilha, é gigantesca e a custo quase zero para o povo. Teatros, diversão, museus...o povo cubano sabe o que é ter o melhor dos mundos: é poder decidir entre ir ao Museu da Revolução ou à Playa Tropicoco, de águas caribenhas, sem ter que pagar $1000 de hospedagem, comida e transporte.

Não vou entrar no mérito da Revolução, mas meu sonho é poder conhecer Playa Girón, onde o imperialismo caiu pela primeira vez. Nem preciso dizer que o povo cubano é, acima de tudo, fidelista e que falar de Fidel, Che e Camilo são motivos para muitos cubanos encherem os olhos, sorrirem e frisarem o quanto são orgulhosos de serem parte de uma geração revolucionária.

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praça da revolução

Memorial José Martí na Plaza de La Revolución.

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E como eles têm história para contar... vocês nem imaginam. A senhora que se encontrava na mesma sala que eu, esteve presente quando a revolução obteve sucesso e de cabeceira tinha várias fotos do Fidel, do Che e até de Marx.

Eu tinha tantas coisas pra escrever sobre Cuba e motivos não me faltam. Logo eu, que me interesso em conhecer e ler, me surpreendi muito com as mentiras que ouvira, em certo momento, sobre a ilha e me deparei com a realidade.

Cada dia a mais em Cuba é um motivo para acreditar que a revolução não veio somente para povo cubano, mas sim como vanguarda para que toda a América Latina seja livre do imperialismo, do capitalismo que nos mata dia após dia, que nos obriga a morrer em filas de hospitais, que nos faz morar nas ruas, não ter o ensino fundamental completo, não saber ler ou escrever, não ter dinheiro para alimentar os filhos... e assim, pouco a pouco nos mata.

HASTA LA VICTORIA SIEMPRE!

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hasta la victoria siempre

Andreza na Plaza de La Revolución. Ao fundo, escultura do Che no prédio do Ministério do Interior.

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Andreza Sant'ana estuda Ciências Econômicas na Universidade Federal de Integração Latino-Americana (UNILA).

Andreza Sant'Ana,

Escrito por: Michelle Domingues

O conteúdo do depoimento é fruto da opinião e da experiência vivida pela autora.

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Esperei muitos anos para ir a Cuba, e voltei literalmente apaixonada por aquela ilha maravilhosa das Caraíbas. É muita coisa para falar, são MUITOS detalhes e coisas que vi e senti.

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Passei dez dias em Cuba, e foi pouco. Quem puder ficar mais tempo, fique. Têm muitas coisas que não consegui ver por falta de tempo.

Estive em 4 cidades: Havana, Trinidad, Santa Clara e Varadero.

Havana - 3 dias: é muito pouco tempo, Havana é recheada de museus, restaurantes, praças, monumentos e bairros que requerem mais tempo de permanência;

Trinidad - 2 dias: o ideal são 3 dias para poder desfrutar a vida interiorana e colonial, o som ao entardecer na praça e a Playa Ancón;

Santa Clara - 2 dias: suficiente

Varadero - 2 dias e meio: é pouco também, embora seja apenas porque não dá vontade de sair daquela praia divina...

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Fiquei hospedada nas casas de famílias cubanas em todas as cidades, menos em Varadero, onde fiquei em um resort all inclusive na areia da praia para descansar. Ficar nas casas dos cubanos, é uma opção excelente, pois paga-se bem menos do que em um hotel e ainda se tem a oportunidade de conhecer melhor a vida deles e conversar. Sem contar que a maioria das casas são bem profissionais, parecem bastante com as nossas pousadas: os quartos têm ar, banheiro privativo, frigobar e alguns têm cofre.

Mas não precisam se preocupar com assalto, lá não existe isso. Não tem assalto. É impressionante em um país que tem pobreza, tem estrangeiro circulando com dinheiro, mas ninguém assalta. Nada, nada, nada, ZERO assalto.

Meu anfitrião em Havana foi a pessoa que me fez sair de lá chorando. Uma das pessoas mais maravilhosas que conheci NA VIDA. Nossa, como aprendi com ele, como fui bem recebida, como ele sabia de TUDO o que estava acontecendo no Brasil, me apresentou a músicas brasileiras que eu desconhecia, e sabia falar sobre TUDO, qualquer assunto. Se eu mostrar a vocês a foto do prédio onde está o apartamento dele em que fiquei hospedada, vocês não vão acreditar, mas foi ali o lugar onde me senti melhor do que em todos os outros, embora seja muito, mas MUITO simples. Meu anfitrião queridíssimo em Havana, o Pepe, me deu de presente, no dia em que eu partia de volta ao Brasil, um livro de Frei Betto em espanhol: "Paraíso Perdido - Viajes por el Mundo Socialista".

Ninguém volta de Cuba igual.

A gente passa por uma espécie de troca de pele, de morte e renascimento, não sei explicar. Eu voltei muito impressionada, e confesso que ainda não consegui digerir tudo o que absorvi pelos olhos e pela alma.

Havana é uma cidade relativamente pequena, tem cerca de 2 milhões de habitantes e tem muitas casas que estão em ruínas. Mas a cidade está sendo restaurada aos poucos. Há muitos lugares que foram revigorados e a gente vê obra por todo lado. Mas tem coisas muito curiosas de se ver, principalmente nós, que vivemos em um país capitalista.

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A Fábrica de Arte Cubano, no bairro Vedado, é um lugar simplesmente FANTÁSTICO. Imaginem um lugar que reúne arte, cinema, música, boate, gastronomia, exposições, ateliês, tudo junto em um galpão que já foi uma fábrica! Um espaço multidisciplinar riquíssimo, cheio de naves que você descobre quando dobra um dos inúmeros corredores, ultra modernos, e que é um dos lugares mais incríveis que já vi. Foi visitado por vários ícones, como Michelle Obama, por exemplo. 

Trinidad: não deixem de ir. Trinidad é uma espécie de "Paraty" de Cuba. Calçamento estilo pé de moleque, casas coloniais dos séculos XVIII e XIX, vários museus e bares, muito mojito e piña colada e uma escadaria que dá na Plaza de la Musica, que é o lugar perfeito para ouvir o som cubano tocado por bandas locais ao cair da tarde e à noite.

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Santa Clara: tem que estar no roteiro de quem quer ver o mausoléu do Che, e isso pra mim era crucial. Mas gostei também de estar em uma cidade que, apesar de ser invadida por turistas, tem uma quantidade enorme de cubanos vivendo suas vidas sem se importar muito com a nossa presença, então lá foi onde vi melhor o dia a dia dos cubanos. Primeiro, fui ao monumento em memória à tomada do trem blindado e outro em homenagem à coluna de Ciro Redondo do Movimento 26 de Julho, que fica no alto de um monte. No outro dia andei até o complexo escultórico onde estão os restos mortais de Che Guevara e dos combatentes que caíram na Bolívia. Dentro do mausoléu e no museu do Che que fica em um anexo, não se pode fazer foto. O mausoléu é muito bonito. Tem uma câmara em meia luz, com uma parede onde estão as gavetas contendo os restos mortais de todos os combatentes e uma pira de onde sai um fogo baixo o tempo todo. Essa pira é a "Chama que Nunca se Apaga" e está acesa desde que os restos mortais de Che foram descobertos na Bolívia e levados para Cuba, em 1997.

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Varadero é outra vibe, na verdade nem parece que a gente está em Cuba. É muito turista, muito rum, aqueles resorts esplendorosos, aquele mar com cores que doem os olhos, aqueles shows de grandes hotéis ao cair da noite...Varadero é o descanso da viagem. É gostoso de ficar, mas não é a Cuba de Havana, de Trinidad e de Santa Clara.

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Mitos que precisam ser derrubados:

- Cuba não tem papel higiênico.

Só não tem nas rodoviárias e em alguns banheiros públicos (igual ao Brasil), mas em todas as casas tinha bastante papel e nos restaurantes também. O mesmo vale para sabonetes.

- Cuba tem pedintes.

O máximo que fazem é tentar vender alguma coisa ou ficar em cima de você perguntando se quer táxi, mas é só dizer não e pronto;

- Cuba não é essa pobreza que falam aos quatro ventos.

Tem pobreza sim, mas não é nada de mais aos nossos olhos. No Brasil tem coisa MUITO pior. E digo mais: a pobreza de Cuba está associada principalmente ao embargo econômico que estrangula a economia e não é sinônimo de violência, o que é um ponto importantíssimo para reflexão. Eles têm pobreza sim, mas não miséria;

- A internet é ruim, mas dá para usar o básico.

Mesmo no roaming a internet roda mal. No entanto, a ligação é limpíssima, parece que você tá falando com uma pessoa do seu lado, e não a quilômetros de distância.

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As verdades que a gente ouve falar:

- A educação é muito boa mesmo.

Em TODAS as cidades por onde passei, vi aquelas cenas que a gente vê em fotos: crianças andando pelas ruas de uniforme, todas iguaizinhas, mochila nas costas, tênis e meia. Os cubanos recebem educação gratuita e as crianças desde pequenas aprendem dois idiomas além do espanhol. As crianças andam nas ruas livremente, não tem essa de ter medo de deixar filho andar na rua sozinho. Como não há violência, até as crianças andam soltas. 

- Cuba é um lugar seguro para turista.

Andei por diversas ruas, várias delas desertas em Havana Vieja e em todas as cidades com todo o meu dinheiro naquela pochete debaixo da roupa, e em NENHUM momento me senti ameaçada ou tive medo, embora muitas ruas não tivessem iluminação pública. Só vi polícia armada em Santa Clara e mesmo assim estavam descontraídos. Em Havana só vi guardas com cassetetes, nenhuma arma de fogo.

- Há um cuidado imenso com a preservação do patrimônio histórico de Havana.

Os prédios estão sendo restaurados, as calçadas e monumentos também, e a cidade exala cultura. Havana Vieja é o local onde pude ver isso bem de perto;

- A comida é boa;
Quem diz que passou fome quando visitou Cuba certamente não perguntou a ninguém onde comer. Comi bem pagando cerca de 3 CUC (3 dólares) a refeição, e a maioria contendo camarões bem graúdos e comida farta. Mas tem que pedir dicas aos anfitriões cubanos das casas onde se fica hospedado.

Cuba é um lugar sensacional !!! Você sai de Cuba, mas Cuba nunca mais sai de você... ❤ Hasta siempre, mi Cuba esplendorosa...

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Michelle é analista de logística no Rio de Janeiro (RJ).

Michelle Domingues,

Escrito por: Fabíola Machado

O conteúdo do depoimento é fruto da opinião e da experiência vivida pela autora.

Sobre a minha experiência em Cuba:

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malecon

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Acho que a primeira coisa que precisamos levar em consideração, quando colocamos nosso pé naquela ilha caribenha, é o bloqueio econômico imposto pelo governo dos Estados Unidos. Não é possível andar pelas ruas e estradas de Cuba desconsiderando o bloqueio.

O bloqueio atrapalha muito a economia cubana e, obviamente, a vida do seu povo. O comércio não é farto; os produtos não chegam rápido às prateleiras; alguns pratos que estão no cardápio dos restaurantes não podem ser servidos, pois falta o ingrediente principal; alguns remédios não são facilmente encontrados (eu precisei de um e só conseguiria indo em hospital, mas nas farmácias ele não estaria disponível); a gasolina não é abundante... enfim, devem ser inúmeros os transtornos causados pelo bloqueio, estes são alguns que eu percebi.

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praça de armas.

Os cubanos devem ser afetados por muitas outras coisas que não tive tempo de notar e também nem devem perceber outras com a intensidade que eu, turista que só conhecia países capitalistas, percebi. Será que eles se incomodam de não ter inúmeras marcas de sabão para lavar roupa, de sabonete, de pasta de dente, e outras coisas?

Parece ruim, e é. Sim, o embargo traz sofrimento, o período especial deve ter sido dificílimo. Mas e a vida dos brasileiros nas favelas, no subúrbio é fácil, não tem sofrimento? Muitos brasileiros ficam horas no trânsito, em um transporte público ruim e caro; têm medo de assalto, de bala perdida, do bandido, da milícia; comem veneno ou podem nem conseguir comer comida com veneno, pois alguns voltam a passar fome; enfrentam filas em hospitais e muitas vezes não conseguem atendimento; não têm boas escolas para as crianças; não conseguem ir trabalhar porque tem tiroteio na porta de casa...

carro classico.

Difícil é a vida da maioria dos brasileiros. Os cubanos têm dignidade, eles têm tratamento médico, escola, universidade, emprego, comida (e sem veneno!), segurança e moradia (mas este último item ainda precisa melhorar)... Eles podem não ter o conforto e o monte de produtos que alguns brasileiros têm, mas se comparado à maioria dos brasileiros, eles estão bem e bem para caramba!!

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capitólio de cuba.

Bom, já falei do bloqueio, então posso dar as minhas impressões como turista.

Havana é linda, uma cidade histórica, preservada (viva a inexistência da especulação imobiliária!) e que vem sendo restaurada desde os anos 2000, então você vai andar por ruas em Habana Vieja e entrar em prédios que em nada perdem para a Europa. Claro que outras ruas não terão o mínimo charme e clamam pelo restauro.

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centro havana

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Você vivenciará Cuba com trilha sonora, pois tem música e dança para todo lado, qualquer restaurante e bar tem artistas tocando. Você poderá conhecer ótimos museus (em qualquer cidade de Cuba! Isso não é mérito da capital!) nos quais você poderá aprender sobre a história de Cuba e apreciar belíssimas obras de artes.

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teatro alissia alonso

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Você poderá beber drinks deliciosos, o que gerou um pequeno transtorno para mim, pois não encontro mais daiquiri aqui como o de Cuba. Sobre a comida não posso falar o mesmo, pois sou vegetariana e não há tantas opções para este público em Cuba, alguns restaurantes tinham que improvisar um prato e sempre vinha muito arroz, o que depois entendi que é porque os cubanos comem arroz aos montes, eles têm consumo per capita de arroz maior que o dos chineses com legumes.

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havana libre

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Sobre as praias acho que nem preciso comentar, é Caribe e isso por si só já fala o que tem que falar.

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Cuba é para andar tranquilamente, curtir um ritmo de vida mais lento (no interior ainda mais); deixar o medo dos assaltos de lado; aproveitar a vista e o pôr do sol; ter a mente aberta para aprender sobre a cultura e a história de Cuba, sobre a resistência e resiliência do povo cubano (fale com os cubanos!!)... para mim foi um lugar para esquecer os problemas e renovar a esperança. Se pudesse voltaria todos os anos, para fazer uma desintoxicação capitalista e me encher da esperança revolucionária de Cuba.

E sobre o site Dicas sobre Cuba, foi essencial para a viagem: deixei as páginas com as dicas de passeio de cada lugar abertas no meu celular e ia olhando qual o próximo local que deveria visitar. Foi essencial para não perder o rumo e saber os melhores lugares para ir. A dica sobre a feira de arte no Paseo del Prado aos domingos com oficinas para crianças foi ótima, pois escolhemos ir lá no domingo e não em outro dia e foi lindo ver as crianças tendo aula de desenho na rua, em pleno domingo, uma experiência que mostra o valor que a cultura tem naquele país. E as pessoas por trás do site também são maravilhosas, abertos a ajudar, a conversar e conhecem muito sobre o país e se não sabem algo (eu cheguei com umas questões bem específicas), eles vão atrás e solucionam!

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universidade de havana

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Fabíola é mestre em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal Fluminense.

Fabíola Machado,