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Escrito por Bernardo Perrota.

O conteúdo do depoimento é fruto da experiência vivida e da opinião do autor.

 

Viajei para Cuba com minha namorada em janeiro de 2020. Nossa viagem durou 16 dias, sendo 15 deles em Havana e um bate e volta em Varadero no último dia. A decisão de ficarmos concentrados em uma só cidade teve influência da questão financeira (redução dos gastos com transporte) e cultural, queríamos aprender tudo o que fosse possível sobre a vida em Havana. Do ponto de vista financeiro a decisão não foi muito acertada, no fim vimos que com a quantia que viajamos daria para conhecermos outras cidades sem muitas preocupações. Já do ponto de vista cultural, não nos arrependemos. Ficaríamos muitos outros dias em Havana e mesmo os 15 não foram suficientes para conhecer tudo o que queríamos.

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A viagem vinha sendo planejada há cerca de três anos e desde o início foi cercada de expectativas. A principal delas era a de conhecer um dos poucos países socialistas, que resistiu às mudanças provocadas pelo fim da Guerra Fria e a todas as tentativas de sabotagem promovidas pelos EUA. Por saber que expectativas (sejam elas boas ou ruins) tendem a ser frustradas pela realidade, tentei me livrar delas antes de aterrissar em Cuba. Desci do avião com a ideia de viver a viagem, de perceber e aprender tudo o que pudesse sobre o país.

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Ainda no caminho entre o aeroporto e Havana tivemos uma experiência não muito positiva, o taxista que nos levou para a habitação deu grandes exemplos de como o machismo está enraizado em muitas sociedades. Apesar do incômodo, a experiência vivida no carro não foi muito diferente das coisas que estamos acostumados a presenciar no Brasil e foi rapidamente superada pela linda forma como fomos recebidos por nossos anfitriões da Casa Amistad. Maria, Roberto e Júlio e toda a família da casa são algumas das pessoas mais incríveis que já conheci em toda minha vida. Eles nos fizeram sentir acolhidos desde o primeiro segundo em que entramos em sua casa. Posso afirmar com toda a certeza que não me arrependo nem um segundo de termos escolhido ficar na Casa Amistad.

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A experiência com o povo cubano foi a melhor coisa que aconteceu na viagem, mas antes de falar sobre isso, quero falar sobre as demais impressões. Ficamos hospedados em Habana Vieja e a primeira impressão que tive foi da semelhança que o bairro tem com alguns locais do Centro Histórico do Rio de Janeiro, sendo a principal diferença a predominância da arquitetura espanhola. O bairro é um dos locais mais antigos da cidade e preserva construções com séculos de existência, muitas delas usadas
para habitação e algumas com estados de conservação bem ruins. Apesar disso, vimos muitas obras espalhadas pelo bairro e por toda a cidade. Em conversas com Maria e Roberto, tivemos um pouco da noção de como o bloqueio dificulta a realização dessas obras e do projeto de revitalização de Habana Vieja, que busca restaurar a cidade mantendo sua arquitetura original e evitando sempre que ocorram processos especulativos e de segregação socioespacial.

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Outro aspecto que chamou muita atenção foi a forma como o país valoriza sua história e sua cultura. A grande diversidade de museus e praças contam a história dos 500 anos da cidade e são muito importantes para valorizar os heróis dos processos revolucionários de independência. Cabe ressaltar aqui a onipresença de José Martí. O poeta e revolucionário da Guerra de Independência contra a Espanha é uma das personalidades históricas mais retratadas em quadros, praças e murais espalhados pela cidade, o que nos fez querer saber mais sobre a sua história.

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Sobre os museus, o que mais me impactou foi o da Revolução. Para além das peças expostas, o museu é um dos mais densos que já fui na vida. A quantidade de informação fez como que eu me sentisse dentro de um livro, onde eu precisava registrar com fotos vários dos painéis para que pudesse consultar depois.

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Inesquecível também foi estar na Praça da Revolução que, assim como o Museu da Revolução, era um dos lugares mais esperados por mim. Estar na praça e no Memorial José Martí foi uma das experiências mais inspiradoras que já tive na vida. Imaginar a praça lotada para os longos e impactantes discursos de Fidel, além de observar os painéis de Che Guevara e de Camilo Cienfuegos, foi algo que eu vou levar para vida e que espero viver algumas outras vezes. Acredito que qualquer pessoa que anseie, deseje e lute por um mundo mais justo e igualitário tem naquele lugar uma grande fonte de inspiração para a vida.

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Outros lugares que fizeram a viagem valer cada um dos dias de espera e planejamento, foram as praças das Armas e da Catedral, além do Malecón e da Fortaleza de La Cabaña. Nesta última, tivemos uma longa e inspiradora conversa com o senhor Espinoza, funcionário na Casa da Comandância do Che (uma das instalações da Fortaleza). Espinoza além de conhecer muito sobre a história e a cultura cubana, também nos deu uma aula de política, nos falando que para mudarmos as condições de vida em qualquer lugar precisamos primeiramente conhecer sua história.

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Eu poderia escrever centenas de páginas sobre os 16 dias que vivi em Cuba, falando sobre como era andar pelas ruas a qualquer hora do dia com tranquilidade e sem medo da violência, ou como foi viver em um ritmo de vida completamente diferente do que estamos acostumados, muito mais tranquilo e mais prazeroso. Para não me alongar muito quero ressaltar aquilo que para mim foi a melhor e principal experiência: o contato com o povo cubano. Foi incrível ver como as pessoas conhecem e valorizam sua história; como o país e o seu povo entendem a importância da educação, da cultura e da arte para a sua formação; como as pessoas ocupam os espaços públicos, com rodas de conversa nas praças, com grupos de música e dança espalhados pelas ruas, contagiando cubanos e turistas com sua alegria.

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Todas essas experiências me marcaram para sempre, mas que mais marcou e que mais vai deixar saudade e vontade de voltar a Cuba foi sem dúvida a relação com Maria, Roberto, Julio e toda a família da Casa Amistad. Posso dizer que a relação foi de amor à primeira vista e que em cada momento nos sentimos como membros da família, principalmente no momento mais tenso da viagem. Esse momento foi marcado por um pequeno problema de saúde comum as pessoas que viajam e entram em contato com culinárias diferentes daquelas que estão acostumadas. Maria e Roberto foram incríveis e cuidaram de nós como seus filhos, nos ajudando a contactar o seguro viagem, chamando o táxi que nos levou à clínica e principalmente cuidando da nossa alimentação nos dias seguintes, algo que não era obrigação deles.

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Apesar da tensão, essa situação nos deu um exemplo da solidariedade cubana e da eficiência da sua medicina. Fomos muito bem atendidos, examinados e medicados e poucas vezes tive um atendimento tão humano quanto em Cuba.

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Afirmo mais uma vez a satisfação de ficar hospedado em uma casa particular cubana. Além do cuidado quando mais precisamos, as experiências mais lindas que tive foram os cafés da manhã com Maria e Roberto. Cada manhã era uma aula diferente, cada manhã conhecíamos um pouco mais da história cubana, personificada nos dois. Sempre acompanhados dos noticiários da CubaVision e da TeleSur, tivemos contato com duas pessoas que viveram todo o processo revolucionário, pessoas que sabem como o país era antes e como ficou depois da Revolução Cubana. Assim como a maioria das pessoas que conversamos, Maria e Roberto conheciam cada característica natural e social do país, nos mostrando isso em cada conversa que tínhamos ao longo das manhãs.

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Destaco aqui, uma das melhores conversas que tive com Maria, onde perguntei sobre a relação do povo cubano com Fidel e a Revolução. Já esperava uma resposta positiva, mas o que ouvi foi surpreendente. Maria e Roberto me mostraram que uma revolução é um processo de mudança permanente e que sem o apoio popular, nunca poderá progredir. Maria me afirmou que o que sentia por Fidel e pelo processo revolucionário estava acima de qualquer questão política, era gratidão, por ela saber como era situação do país antes e depois da Revolução. Maria nos falou como era viver
em um país com milhares de analfabetos e como foi ver todas essas pessoas sendo alfabetizadas em pouco tempo; como era viver em um país onde o atendimento médico era privilégio de um pequeno grupo de pessoas e como é viver em um país onde não morre uma mulher grávida há quase 20 anos; como era viver em um país onde as crianças viviam na rua e como é viver em um país onde as crianças não morrem de fome e tem educação gratuita e de qualidade; como é viver em um país pobre, mas que garante alimentação, saúde e educação para todos os seus habitantes; como é viver em um país pobre, mas que oferece segurança para todos seus habitantes e turistas; como é viver em um país onde poucas pessoas vivem nas ruas, a maioria delas por problemas pessoais e familiares, e onde não há imóveis servindo apenas a fins especulativos; como é viver em um país que apesar do embargo econômico (que é real e afeta a todos) e de todas as ofensas que sofre, proporciona uma qualidade de vida para a sua população superior àquela vivida pela maioria das pessoas dos países latino-americanos.

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Todas essas experiências e conversas me fizeram querer voltar muitas outras vezes à Cuba, não só para conhecer os lugares que não consegui em Havana, mas para conhecer outras cidades, outras pessoas e muito mais a história desse país que faz muito com pouco e que deveria ser inspiração para todas as pessoas dos países periféricos.

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Bernardo Perrota, Bernardo é professor de Geografia em Niterói, RJ.

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